A minha Aventura "Brasiliana"

Quando mudou para o Brasil e por que escolheu o nosso país?

A minha transferência para o Brasil ocorreu no final de 1999. Confesso que a minha mudança foi ditada pelo coração: o meu namorado, que se tornou marido mais tarde, recebeu uma proposta de trabalho no Brasil por uma empresa italiana e eu decidi segui-lo.  Nada como uma boa motivação para promover mudanças nas nossas vidas!

Acabou se tornando uma escolha afortunada também para a minha vida profissional, pois consegui emprego em uma empresa multinacional que, coincidentemente, estava à procura de uma pessoa para desenvolver um projeto de parcerias internacionais e meu perfil se encaixava perfeitamente.

Qual o contexto na época? Sofreu preconceito?

No começo de 2000 o mercado de seguros brasileiro era muito diferente do atual. Até mais fácil em certos aspectos, porque era bem menos sofisticado e competitivo. As seguradoras brasileiras conseguiam subscrever grandes riscos com relativa facilidade porque eram suportadas pela capacidade do IRB, com o monopólio do resseguro. Porém, não permitia muita inovação e os produtos das seguradoras eram muito padronizados. Neste contexto, eu tinha o desafio de explicar para os meus correspondentes e clientes no exterior as lógicas e, às vezes, as limitações do nosso mercado.

Com o fim do monopólio do resseguro houve uma valorização dos profissionais com perfil internacional e, também, um grande movimento de busca por jovens talentos por parte das empresas.

Até então, era um mercado de prevalência masculina, particularmente nas posições estratégicas das empresas. Mas, isso, francamente, não me surpreendia. Afinal, a Itália não era muito diferente.

O novo momento do mercado acabou, de certa forma, impulsionando a carreira das mulheres no setor. Elas foram ocupando cada vez mais posições de destaque e de senioridade.

Na minha empresa não sofri preconceito, muito pelo contrário. Na medida em que apresentava resultados positivos, as lideranças deram oportunidades para eu me destacar tanto no mercado nacional quanto internacional, inclusive representando a companhia em eventos internacionais como o RIMS.

Com o passar do tempo, a empresa ofereceu cada vez mais espaço para as mulheres. Chegou a ter uma distribuição equilibrada entre homens e mulheres na diretoria.

Como você fez para se posicionar?

Uma das características mais marcantes da minha personalidade é a transparência que, atrelada à firmeza nos meus posicionamentos, me facilitou na criação de relacionamentos de confiança e duradouros. Acredito que isto foi a chave principal na minha evolução profissional, tanto na parte de negócios como da gestão de pessoas.  Ambientes de confiança facilitam os relacionamentos interpessoais e promovem uma comunicação mais espontânea permitindo um maior desenvolvimento das pessoas e por consequência dos negócios da empresa.

Que oportunidades surgiram e como você abraçou?

De forma geral os novos desafios profissionais que se apresentaram na minha vida vieram como consequência de um resultado atingido anteriormente.  Na minha carreira não queimei etapas.

Do ponto de vista da atitude sempre abracei novas oportunidades com gratidão, entusiasmo e responsabilidade, ciente de que alguém tinha tomado a decisão de confiar em mim para o desenvolvimento de um projeto ou para uma posição estratégica.

Quando surgem novas oportunidades na nossa vida raramente estamos 100% prontos para abraçá-las. Fundamental para mim foi a busca constante do conhecimento e a aproximação a pessoas que eu admirasse e que pudessem me agregar valor. Tenho o privilégio de conhecer muitos executivos deste mercado com os quais aprendi muito, e fico feliz que, ao longo dos últimos anos, eu tenha me relacionado cada vez com mais mulheres extraordinárias do nosso mercado com as quais continuo aprendendo muito.

Lições aprendidas e olhar para o futuro

A marca da minha vida é a mudança. Não só porque mudei de país duas vezes, mas, porque percebi que, se quisesse evoluir na minha vida, tanto pessoal quanto profissional, não poderia permanecer muito tempo em uma área de conforto. Digo isto apesar de ter permanecido na mesma empresa por quase 20 anos. Entretanto, os desafios, as responsabilidades e as lideranças foram mudando com relativa frequência, exigindo-me grande flexibilidade.

Da mesma forma que a capacidade de mudar e da adaptabilidade tornou-me um indivíduo mais resiliente também tenho certeza que, em um mundo ágil em contínua e rápida transformação, as empresas irão investir cada vez mais na promoção da diversidade. Não só para um ambiente mais justo, mas como forma de trazer inovação e crescimento sustentável.


Patrizia Mastrapasqua

Patrizia Mastrapasqua

Patrizia é italiana originaria de Milão, é casada com um espanhol e é mãe de um brasileiro. Ao longo dos seus 30 anos de carreira em seguros sempre atuou em ambientes internacionais e multiculturais. No Brasil foi executiva da Lockton Corretora de Seguros até 2019 iniciando pelo desenvolvimento das práticas internacionais da empresa até liderar a Divisão Commercial Lines. Recentemente retornou a Itália atuando na Divisão Internacional da Assiteca, maior corretora de seguros de capital italiano e representante da Lockton Global na Itália.