Engravidei na pandemia! E agora, como fica a minha carreira?

Eu e meu marido fizemos uma cirurgia refrativa para correção de miopia no dia 29 de janeiro deste ano. Era uma sexta-feira e, segundo o médico, a recuperação levaria apenas um fim de semana, ou seja, na segunda-feira, estaríamos aptos a retomar nossas atividades normais. 

 

O que ele não sabia – nem nós – era que estávamos com COVID. Diagnóstico confirmado no dia 1º de fevereiro. Consultas on-line, sintomas ainda leves, orientações contraditórias dos médicos e... minha menstruação não veio!!! 

 

Aguardei mais uns dias até que no dia 03, fiz testes de gravidez e lá estava eu, grávida, com COVID, os sintomas do meu marido se agravando e um rio de incertezas sobre o que poderia acontecer conosco - meu bebê, meu marido e eu.

 

E qual foi a primeira coisa que veio à minha mente? Fazer as contas da data prevista do parto para confirmar se seria posterior à renovação do programa de seguros da empresa onde trabalho (!!). Isso pode ser considerado um sinal de comprometimento?

 

Também! Mas, acima de tudo, é reflexo do medo que nós mulheres sentimos quando percebemos que algo tão sublime como o fato de ser mãe pode, ao mesmo tempo, ser um ofensor à nossa trajetória profissional e aos planos de desenvolvimento que traçamos.

 

Tenho a sorte de trabalhar em uma empresa que leva a igualdade de gênero muito a sério e de pertencer a uma diretoria liderada pelo sponsor da bandeira de equidade do Grupo. 

 

Isso, claro, me dá um certo conforto. Mas, quantas mulheres têm esse privilégio? Quantas empresas têm VP's e CEO's engajados com o tema, patrocinando ações e disseminando uma cultura que, de fato, torne a maternidade um lugar seguro para as mulheres, sem ameaças à carreira?

 

Como se não bastassem as questões de equidade ainda mal endereçadas nas organizações, estamos vivendo o momento de maior incerteza econômica que a nossa geração já presenciou. Até quando perdurará a pandemia? Como será a economia pós-COVID? Quais empresas vão resistir? E se precisarem "enxugar" o quadro de pessoal, como fica a avaliação de uma mulher com filho pequeno em relação aos homens e outras mulheres que não são mães?

 

Em seu artigo para a Revista Crescer, Flavia Oshima menciona um levantamento realizado com profissionais com título de MBA nos Estados Unidos, no qual 36% das mulheres afirmaram ter tido uma interrupção na progressão de suas carreiras depois da gravidez, enquanto suas colegas sem filhos seguiram numa trajetória de promoção e aumento de prestígio. "Se entre homens e mulheres ainda há diferença, entre homens, mulheres e mulheres com filhos a distância entre igualdade de oportunidades é ainda maior" afirma Flavia.

 

Já ouvi gestores declararem abertamente que preferem homens a mulheres pelo simples fato de que elas podem engravidar e ficar afastadas por um longo período. 

 

Mas, será que esse período de afastamento invalida todas as suas entregas até então? E o fato de ser mãe necessariamente comprometerá suas entregas futuras? Como fica a avaliação de desempenho de uma mulher durante sua licença maternidade? E quais são os desafios profissionais que ela recebe no seu retorno ao trabalho, para dar continuidade à sua trajetória de desenvolvimento?

 

A Diretora de RH, Évelin Gardenal, em uma publicação para o site Mundo RH, traz ótimos exemplos de como as organizações podem contribuir para o bem-estar das mães no trabalho. As medidas vão desde programas de acompanhamento da gestação, licença maternidade de seis meses, até flexibilização de horários e home office – uma realidade alavancada pela pandemia. "As mães sentem-se mais seguras e confortáveis ao saber que poderão se ausentar do escritório quando necessário e que contam com a confiança da empresa em sua responsabilidade e capacidade de cumprir com as metas estabelecidas" afirma Évelin.

 

O fato é que, a despeito do tanto que ainda precisamos evoluir enquanto sociedade e gestores de pessoas, nós, mulheres, precisamos seguir confiantes no nosso potencial e preparadas para mostrar que, apesar dos inúmeros desafios que a maternidade traz, isso não diminui nossa capacidade de continuar fazendo entregas consistentes e contribuindo para o sucesso das organizações onde trabalhamos.

 

Se a empresa em que você trabalha não oferece suporte às mulheres, seja uma agente para a mudança de postura e cultura. 

 

Promova discussões sobre o tema, questione, traga exemplos, converse com profissionais de outras áreas e empresas e, se não houver espaço para uma evolução real em direção à equidade, pense em mudar! Inclua na sua wishlist profissional atuar em empresas que trabalhem efetivamente para normalizar a maternidade e oferecer condições de igualdade entre homens e mulheres.

 

Pode parecer utópico, mas, em 2020, tive bons exemplos de que já existem empresas onde a equidade tem se tornado uma realidade. 

 

O primeiro deles foi o movimento #MulheresInquietas criado pelo Grupo Boticário, no qual várias mulheres foram convidadas a escrever uma carta a elas mesmas em algum momento do passado em que mais duvidaram de si mesmas. Foram centenas de histórias incríveis, entre as quais destaco a da Aline Mori, Diretora do Grupo, onde ela relata sua jornada em busca da promoção que acabou ocorrendo durante a sua licença maternidade! 

 

Outro ótimo exemplo é o da Tatiana Mattos, profissional de RH da Get in & Z-Tech, que fez uma publicação que ganhou notoriedade em sua página no LinkedIn, onde relata a história da sua promoção ocorrida durante a gravidez, o título é "Promovida a grávida & Promovida grávida".

 

Então, respondendo à pergunta título deste artigo: Minha carreira passará a ter um concorrente no posto de prioridades da minha vida – meu Pedro. 

 

Mas, é justamente por causa da sua chegada e por tudo que eu quero proporcionar a ele que vou continuar sendo uma profissional em constante evolução e perseguindo meus objetivos com afinco e dedicação. Afinal, preciso dar bons exemplos para ele também!


Carolina Pinheiro

Carolina Pinheiro

Especialista em Seguros no Grupo Boticário, graduada em Administração pela ESNS/RJ, com MBA em Gestão de Projetos pela FGV/RJ e Mestranda em Gestão, Liderança e Decisão na Universidade Federal do Paraná - UFPR. Atua no mercado de seguros há mais de 15 anos, com experiência em seguradoras, corretoras e nos últimos 10 anos como Risk Manager em grandes empresas, como Grupo Globo e Grupo Boticário.