O que é Home e o que é Office: o trabalho feminino na pandemia

Segundo a mitologia grega, depois de várias aventuras e desventuras vividas pelo astuto e malicioso Sísifo, filho do rei Éolo, da Tessália, a morte o alcançou em idade avançada, cuja alma, à mando de Zeus (Deus dos deuses), foi conduzida por Hermes (Deus mensageiro) à Hades (Deus do mundo subterrâneo).

Quando Sísifo chegou ao mundo dos mortos foi considerado um grande desafiador, recebendo, de pronto, um castigo por toda a eternidade. Tinha que fazer rolar manualmente uma enorme pedra de mármore até o topo de uma determinada montanha. Todas as vezes que a pedra estava prestes a alcançar o topo da montanha, uma “força invisível” fazia a pedra rolar novamente montanha abaixo até o ponto de partida, impondo-lhe um esforço maior, mais cansativo e interminável na execução desta tarefa. O “Trabalho de Sísifo”[1].

O aumento do trabalho em Home e em Office, neste momento de estado de pandemia – causado pela doença do novo coronavírus, a Covid-19- atribui ao gênero feminino a execução de maior número de tarefas cansativas e intermináveis.

Essa dinâmica não é nenhuma novidade, pela Ética do Devotamento[2], a sociedade patriarcal defende que a ideia de naturalização dos cuidados dispensados aos doentes, às crianças e aos afazeres domésticos são de inteira responsabilidade das mulheres, gerando-as, na prática, maior sobrecarga de trabalho nas chamadas dupla e até tríplice jornadas laborais do feminino.

O modo de organização econômica da sociedade desde a idade moderna impõem valor monetário ao tempo do trabalho (mercadoria), explorando-o em mais valia. A lógica da produtividade capitalista revela-se na imposição para o alcance do trabalho excedente. Aquele superior as necessidades reais e ainda, aquele em que a sociedade capitalista lhe atribui importância. Portanto, não é qualquer tipo de trabalho que é valorizado pelo capitalismo. Somente aquele que pode ser convertido em riqueza assume papel importante na sociedade.

A intensificação do trabalho profissional virtual em home office, por conta do estado de pandemia, compele o alcance do mesmo patamar de produtividade que era experimentado anteriormente pelo trabalho presencial na sede da empresa, olvidando a existência de diversas dificuldades e disparidades de várias ordens neste modo de prestação laboral, desde um maior ou menor acesso às condições materiais para o desenvolvimento do trabalho, dada a desigualdade econômica estrutural existente na sociedade, até a isenção de responsabilidade por parte do empregador em relação as condições de realização das tarefas pelo empregado no labor remoto, entre as quais, a fixação e o cumprimento de jornada de trabalho pelo obreiro de acordo com a lei.

Antes mesmo do estado de pandemia causado pelo Covid 19, as mulheres já despendiam 3 horas a mais de trabalho semanais em relação a quantidade de horas trabalhadas semanalmente pelos homens. As mulheres trabalhavam 53,3 horas semanais, sendo 34,8 horas semanais destinadas às tarefas profissionais e 18,5 horas semanais destinadas às tarefas de cuidados da casa e das pessoas. Enquanto as horas semanais trabalhadas pelos homens representam em torno de 50,3 horas, das quais apenas 10,4 horas semanais são destinadas as tarefas domésticas, segundo  estatística  realizada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística – IBGE, baseada nos dados da PNAD – Pesquisa Nacional Por Amostra Domiciliar.

A mesma pesquisa apurou ainda, que 92,2% do total das pessoas do gênero feminino trabalhavam em tarefas domésticas e 37% dessas mulheres cuidam de pessoas da família, comparado a apenas 26,1% dos homens que se responsabilizam por igual atividade.

Historicamente a sociedade enfrenta problemas causados pela desigualdade de gênero na divisão social do trabalho. Contudo, para fins de comparação, ainda não se tem notícia de estatísticas oficiais específicas sobre a divisão de gênero do trabalho remunerado e não remunerado, causada pela intensificação do trabalho em Home Office imposto pela política sanitária de contenção do avanço do COVID 19.

Entretanto, é possível presumir-se que houve um aumento no descompasso entre o tempo disponível dos homens e das mulheres no trabalho em home office, a partir do isolamento social, acarretando-as maior sobrecarga de trabalho, o que compromete a sua autonomia e liberdade, revelando forma ainda mais precarizante de sua atividade laboral.

Antes do isolamento social, as mulheres que trabalhavam presencialmente em seus locais de trabalho (Office) desobrigavam-se temporariamente da execução do trabalho não remunerado(Home) no tempo em que estavam executando o trabalho remunerado, ainda que em certa medida, pois mantida a responsabilização(e não a execução) do trabalho doméstico.

Neste contexto, recebiam “certa concessão” da sociedade patriarcal para que pudessem apenas e tão somente se concentrarem na execução das tarefas do trabalho remunerado (Office), desconectando-se da execução temporária das tarefas do trabalho não remunerado (Home).

Porém, em razão do isolamento social imposto pela política de contenção do Coronavírus, com a obrigatoriedade das mulheres trabalharem profissionalmente de forma remota dentro das dependências de seus lares, elas não puderam mais exercer o direito à desconexão entre o momento da execução do trabalho remunerado (Office) e o momento da execução do trabalho não remunerado (Home), haja vista que agora labutam com maior sobrecarga que outrora, pois tendem a desempenhar concomitante as tarefas de Home e de Office.

As mulheres não conseguem mais alternar a execução das tarefas domiciliares com a execução das tarefas profissionais, consistindo em mais um elemento sutil precarizante de sua força de trabalho, o que só reforça a apropriação pelo capital de maior tempo da mulher em relação ao trabalho socialmente e culturalmente exigido do homem.

Se antes do estado de pandemia as mulheres laboravam mais de três horas semanais em relação aquelas laboradas pelos homens, agora, com o trabalho profissional e doméstico junto e misturado, prestado ao mesmo tempo e no mesmo lugar, elas despendem um esforço maior, mais cansativo e interminável de labor, um verdadeiro ‘Trabalho de Sísifo’, imposto cultural e socialmente pela ‘força (in)visível’ do patriarcado, sempre tentadas, neuroticamente, a conciliar o inconciliável.